Imagine, se em vez de construir o Estádio Mané Garrincha, o GDF decidisse investir em outras obras de infraestrutura para melhorar a qualidade de vida dos brasilienses, principalmente os mais carentes, que dependem do Estado para ter educação, Saúde e Segurança?  Orçado em R$ 700 milhões, o estádio, inaugurado ontem, vai atingir, segundo levantamento do Tribunal de Contas do DF, R$ 1,6 bilhão.

Quantia que poderia, por exemplo, garantir a construção de 473 creches, a exemplo do Centro de Educação Infantil 210, de Samambaia, orçado em R$ 3,3 milhões. Também seria possível erguer e equipar 446 clínicas de Saúde da Família, como em Sobradinho, onde foram gastos R$ 3,5 milhões e haverá capacidade de atendimento de 160 pessoas/dia.

 

E não é só. Em casas populares, o dinheiro equivale a cerca de 20 mil unidades, levando em conta que o governo gastará R$ 38 milhões para construir 506 unidades, o que faz com que o custo unitário chegue a R$ 75 mil, como o gasto médio anunciado pelo GDF em Santa Maria e Samambaia, na última semana. Enquanto isso, o DF amarga um déficit habitacional de quase 100 mil unidades. Em um investimento no transporte público, poderiam ser feitos 244 terminais rodoviários similares ao do Setor O, inaugurado menos de dez dias atrás.

 

Maior urgência

 

De acordo com o especialista em administração pública José Matias Pereira, os investimentos no Mané Garrincha poderiam ser empregados em áreas com maior urgência. “O DF possui  gargalos, áreas sensíveis que precisam de providências. A mais grave de todas é o transporte, que acaba inviabilizando a cidade e interferindo na qualidade de vida da população. Poderia ser feita a expansão do metrô, o VLT poderia sair do papel. Tudo isso serviria para esvaziar a cidade de carros”, disse.

 

“Fazer um estádio quando as pessoas não conseguem circular pela cidade é uma ofensa ao bom senso. Investimento em um estádio é algo que não traz retorno, diferente do transporte ou da educação, por exemplo”, defendeu.

 

Matias também critica a falta de planejamento em relação aos gastos. O Estádio Nacional tinha previsão de gastos de cerca de R$ 700 milhões, mas já ultrapassou o dobro. “Quando você executa sem projeto, sem detalhar tudo aquilo que será gasto você abre a janela para desvios e corrupção”, disse.

 

Frustração

 

O maior legado, de acordo com ele, será bastante diferente daquilo que foi prometido. “O legado que fica é a frustração. Uma cidade como Brasília ter o estádio mais caro do mundo não compatível com o País pobre que vivemos”, lamentou. “Acredito que as eleições do ano que vem serão um teste para que o eleitor possa avaliar como se comporta um gestor comprometido com a sociedade”, concluiu.

 

Para os mais ricos

 

 

A deputada Eliana Pedrosa (PSD), que participa da Comissão Especial para a Copa do Mundo de 2014, acompanha os gastos do Mané de perto e demonstra preocupação. “O estádio não está sendo concebido para o futebol. Os eventos que virão para cá serão direcionados aos mais ricos”, projetou.

 

Além disso, o remanejamento de recursos de outras áreas também é um ponto que, de acordo com a parlamentar, deve ser fiscalizado. Em fevereiro, R$ 100 milhões foram transferidos de áreas como saúde, educação e transporte, para reforçar as obras do Estádio Nacional. “É uma questão de definição de prioridades. Parece que a prioridade do GDF é ligada ao estádio. No entanto, saúde e educação são áreas onde não deveria haver remanejamento”, defendeu Pedrosa.

 

Sobre essa transferência de recursos para o estádio, a Secretaria Extraordinária da Copa admite que foram feitos remanejamentos, mas garante que todos os recursos “emprestados” foram devolvidos.

Fonte: JORNAL DE BRASILIA